Uma questão interessante ganhou espaço nas redes sociais nos últimos dias por conta de um fato infeliz: a obrigatoriedade do uso de serviços públicos por políticos.
Mais especificamente tem se discutindo muito se o ex-presidente Lula deveria utilizar o SUS para tratar do câncer de Laringe que foi diagnosticado no último sábado.
Não quero entrar nesse mérito, mas me vejo obrigado a fazer uma breve nota e dizer que recebi a notícia do câncer do ex-presidente com muito pesar. Todos sabem de algumas criticas que tenho a ele e a seu governo. Mas os que me conhecem melhor também sabem que tenho admiração por parte do seu trabalho e pela sua pessoa.
Dito isso, vou ao ponto principal do post. Será que a obrigatoriedade do uso de serviços públicos por políticos melhoraria o nível desses serviços? A resposta imediata parece ser sim. Mas eu acredito que há aqui um problema de seleção, especialmente no curto prazo.
Explico para os menos familiarizados com termos econômicos: a baixa qualidade dos serviços públicos expulsaria do cenário político aqueles mais bem preparados, mais bem formados, com condições de agregarem alguma coisa ao país, pois o custo de entrar na carreira política seria muito alto para eles: eles teriam que matricular seus filhos em escolas de baixa qualidade, teriam que se submeter à hospitais de baixa qualidade, etc.
Para esses indivíduos, mais bem preparados, seria uma melhor opção ir para o mercado privado, por exemplo, onde ganhariam bem e poderiam ter acesso a serviços melhores.
Restariam apenas os indivíduos com baixo preparo, que não teriam a opção de ser absorvido pelo mercado privado. À esses a opção de seguir carreira política e ter acesso a serviços públicos de baixa qualidade seria melhor do que nada.
Nesse cenário, teríamos, portanto, uma piora da qualidade dos políticos, pelo menos no curto prazo, enquanto os serviços públicos fossem de baixo nível. Como, infelizmente não é possível produzir educação e saúde de qualidade para todos da noite para o dia, acho que é bem razoável que isso de fato ocorresse.
O argumento de quem defende que os políticos sejam forçados a utilizar serviços públicos é que com o passar dos anos, os investimentos em escolas e postos de saúde públicos tenderiam a aumentar. Eu entendo e respeito esse argumento. Mas acho ingênuo justamente pelo exposto acima.
Eu entendo que esse tipo de regulamentação poderia prejudicar em tal ponto a seleção de políticos que poderia, por meio de aumento da corrupção e/ou piora de gestão até reduzir os investimentos em educação e saúde.
Note que não é uma questão simples. Note também que não estou afirmando categoricamente que essa seria uma medida prejudicial. Estou apenas tentando fomentar uma discussão.
Reconheço parte da minha ignorância em não saber como funciona e se existe esse tipo de mecanismo em outras democracias no mundo. Sei que existem outras democracias onde políticos possuem remunerações muito inferiores à do mercado privado e que são complementadas por outras atividades, como no Reino Unido, por exemplo. Esse é um caso interessante e que pode ser feito um paralelo com o Brasil.
Gostaria de ouvir opiniões.