Posso estar falando uma grande besteira, mas meus amigos economistas vão me entender. Pelo menos espero que entendam.
Durante a pós-graduação (seja no mestrado ou no doutorado) passamos semestres, anos, lendo, estudando, fazendo listas de exercícios enormes, provando matematicamente uma série de coisas que, se um leigo olhar, vai pensar: que diabos isso tem a ver com economia?
De fato, parando para pensar, econometria (disciplina com a qual perdemos grande parte do nosso tempo) é uma ferramenta para analisar diversas questões, não só econômicas, por meio de técnicas estatísticas. É evidente que nossa preocupação maior é com as questões de economia, mas com a evolução da capacidade de processamento dos computadores e da disponibilidade de dados, os economistas estão cada vez mais dando pitacos em campos menos tradicionais – aproveitando a vantagem comparativa que têm por conta de sua forte formação estatística -, campos que para muitos nem podem ser chamados de “economia”.
Mas esse não é o principal ponto do post. Meu ponto do post é uma curiosidade. Eu tive algum (na verdade pequeno) contato com pesquisadores de outras áreas e pelo que pude notar a formação estatística deles é menos formal. Em campos como a medicina, os experimentos são na maioria das vezes aleatórios, e aí uma simples comparação de média resolve o problema, ok: você seleciona aleatoriamente um grupo de controle, um grupo de tratamento, ministra o medicamento e compara os resultados. Na economia temos agentes “escolhendo” ou não se vão participar do “experimento”, por isso a coisa é mais complexa.
Mas na medicina – e em outros campos correlatos – a coisa não é sempre tão simples assim. E aí me pergunto: é sempre tratada com essa simplicidade? Por exemplo: hoje li no UOL a seguinte notícia: Limpeza dental ajuda a reduzir risco de infarto, diz estudo. Após três parágrafos de enrolação, a jornalista escreve a tal justificativa da pesquisadora:
“A limpeza profissional dos dentes parece reduzir a inflamação provocada pela proliferação de bactérias, que pode provocar infartos e derrames cerebrais, explicou a doutora Emily (Zu-Yin) Chen, cardiologista do hospital de veteranos.”
Ora, eu não entendendo nada do assunto. A tal doutora é cariologista do hospital de veteranos (sei lá que patente é essa, mas sem dúvida é maior do que a minha na área de cardiologia). Mas meu ponto é, isso, do ponto de vista econométrico, ou melhor, do ponto de vista estatístico, tem cheiro de viés de variável omitida.
Limpar os dentes reduz risco de infarto? Não é muito mais razoável que o pesquisador não tenha controlado por alguma não observável de “cuidados com a saúde” ou coisa do tipo e limpar os dentes esteja captando esse efeito?
Alguém que conhece mais a fundo esse tipo de pesquisa pode me esclarecer como funciona esse tipo de pesquisa? Se estou falando uma grande bobagem, peço desculpas. Estou apenas externando um desconforto que tenho quando leio esse tipo de estudos.
Segue o link para a reportagem completa: http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/ultimas-noticias/afp/2011/11/15/limpeza-dental-ajuda-a-reduzir-risco-de-infarto-diz-estudo.jhtm